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quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Punhos inúteis

Então sorriu, levantou a cabeça e encarou-o.

O outro soco atingiu-lhe diretamente as costelas, recuperou o fôlego e sorriu novamente.

Desta vez o chute atingiu-lhe o rosto, caiu de costas, sangrava.

Gargalhou com força e vontade, e mais notável ainda, com sinceridade.

O agressor foi embora derrotado e humilhado, perdera a batalha sem levar nem um golpe, pelo menos nenhum físico.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

S entre quatro paredes

Após não conseguir se conter e soltar o sulfuroso no elevador, fez o que qualquer pessoa educada faria, apontou para o filho: "Que feio ein Pedrinho?"

quarta-feira, 28 de julho de 2010

A felicidade é doce

Os pés sujos e descalços sobre a varanda de terra batida da frente da casa mostravam a situação financeira da família.

Todo mundo tem um, dois, três ou mais primos pobres na família, muitos fazem questão de visitar e manter contato apenas com aqueles que possuem um nível sócio-econômico próximo ao seu. Era nisso que ele diferenciava de quase todas pessoas e do restante de seus consangüíneos.

Lá estava ele, diante daquela criança de pouco mais de quatro anos, as pernas sujas tinham vários roxos que pareciam ser de brincar na rua e fazer "artes", a pobreza até que tem seus prós.

Pediu um abraço, o guri ficou receoso de abraçar o primo, apesar de conhece-lo, ele sabia que a mãe ficaria brava se sujasse a roupa limpa do doutor (que se chamava Marcos). Mas a insistência não permitiu que o ele titubeasse mais, correu e o abraçou. Os sorrisos tinham motivos distintos, mas ambos muito sinceros, um sorria porque há muito não recebia um carinho e o outro porque há muito não via alguém que precisasse tanto de um.

Sentou-se ali mesmo, no chão, e conversou e conversou e conversou com a criança. Quando chamam esses bacuris de carentes não é só porque às vezes eles não tem o que comer, mas porque carinho, atenção e amor às vezes são o que mais lhes fazem falta.

Onde eu estava mesmo?

Lembrei (mentira, li aí em cima mesmo)! Sentado no chão de terra com o menino, pôde suprir um pouco do que ele precisava, e como só esse tipo de criança sabe fazer quando alguém lhe dá ouvidos, o projetinho de gente começou a falar tudo o que sabia e queria e podia o mais rápido que conseguiu. Quando já tinha falado quase tudo e o doutor (que na verdade não era doutor coisa nenhuma, apenas formado em um curso superior qualquer, mas para o menino aquilo era ser doutor) já começava a pensar de onde saía tanto fôlego o rapazinho falou algo que o chocou.

- ... e aí quando eu crescer eu vou trabalhar muito muito muito pra ganhar cinco reais e comprar aquelas barras de chocolate do mercado pra mim e para os meus irmãos...

Marcos não conseguiu escutar mais nada. Entrou em choque. Provavelmente o menino pediu para o pai o chocolate e eles lhe disseram que era muito caro e que só com muito trabalho um dia ele poderia comprar algo daquele tipo. Embaraçado com a situação fez o que qualquer pessoa decente faria, se levantou e se despediu do garoto com um forte abraço, entrou no seu carro e sumiu, nem se deu ao trabalho de chegar até a casa para cumprimentar os pais do garoto.

No outro dia pela manhã voltou com uma caixa enorme (enorme mesmo, era uma caixa de microondas) cheia de chocolates dos mais diversos tipos, as lágrimas do garoto ao se misturarem com as suas na hora do abraço foram a emoção mais verdadeira que teve em muito tempo.

Os chocolates lhe custaram o salário do mês, mas a felicidade que aquele momento proporcionou marcou para sempre sua memória.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Eles - Um

Se conheceram.

Primeiro encontro.
Deram certo porque ela amava a azeitona da panqueca e ele amava, porque ele sabia que tinha piadas horríveis e mesmo assim ela sorria, porque ele usava um penteado "acabei de acordar" e ela usava all star.

Porque queriam.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Tecnologia

Msn, orkut, sms, celular, Twitter, monte de coisa inútil. Trocaria um mês disso por uma hora com ela.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Quem realmente manda

- Pai, uma menina me chamou de cabeção.
O progenitor, muito envolvido com a abertura da copa, mal dá bola para o filho.
- E daí?
- O que eu faço pai?
- Sei lá, chama ela orelhuda.
- Mas a orelha dela é pequenininha!
- De nariguda então oras!
- O nariz dela parece o da Cameron Diaz...
- Então manda ela catar coquinho na ladeira!
- E eu posso ajudar ela?
O pai fica louco com a insistência do filho.
- CLARO QUE NÃO, PORQUE DIACHOS VOCÊ FARIA ISSO?
O meninote abaixa a cabeça.
- É que eu gosto dela pai.
Finalmente o pai desgruda os olhos da tela e pensa no caso do guri, entende pelo que passa o filho.
- Rapaz, esse negócio de gostar é coisa de boiola, macho que é macho pega, não gosta de mulher.
- É que eu queria dar um chocolate pra ela...
- QUE CHOCOLATE QUE NADA RAPAZ, FILHO MEU TEM QUE SER MACHO, CHEGA BEIJANDO, MOSTRA PRA ESSA MENINA QUEM É QUE MANDA!
A mãe da cozinha escuta a conversa.
- O que tá acontecendo aí na sala João, o que você tá falando pra esse menino?
- Nada não amorzinho, coisa nossa, sobre a copa...
- É bom mesmo, senão você já sabe né? Mais um mês...
- Não meu anjo, brincadeirinha, nada demais...
- Vem cá pra cozinha Marquinhos, deixa eu te explicar umas coisas sobre as mulheres...

domingo, 6 de junho de 2010

Vendo com os próprios olhos

Lá estava eu, era um porre de uma aula de história antiga, estava quase dormindo nos fundos da sala...

- Os mitos gregos serviam para explicar a realidade em que viviam mas não compreendiam, daí surgiram suas lendas. Por esse mesmo motivo todas as sociedades criaram mitos, sendo Deus o maior deles.

Pouco me importava com o que ele estava falando, mas vi uma mão se levantando, não entendi o que aquele cara esquisito queria falar sobre aquilo, mas pelo menos curioso eu fiquei. Ele se colocou de pé.

- Professor, eu acredito em Deus.
- O QUÊ?
- Sim, acredito em Deus, em milagres e em um mundo melhor, para mim e para o senhor.

Conhecendo o professor eu vi que a coisa ia ficar feia, decidir abrir os dois olhos e prestar atenção de verdade. Ele começou a gargalhar com todo cinismo que era possível, alguns alunos o acompanharam com risadinhas maldosas.

- Quanta ingenuidade, eu acreditava nessa baboseira quando era criança. A ciência já explicou todas nossas dúvidas, não precisamos mais de Deus, esse delírio já foi ultrapassado. As pessoas estão evoluindo, se tornando mais inteligentes...

O pobre aluno estava notavelmente incomodado com a posição jocosa do professor, porém permanecia de pé, como que mostrando para o professor que aquilo não mudaria sua posição.

-...as pessoas mais estudadas e sábias já pararam de acreditar nessas besteiras, o mundo moderno já não pode achar que tem um cara lá de cima olhando pra gente como se fosse um imenso big brother e mexendo os pauzinho só pra ter mais graça. SERÁ QUE VOCÊ NÃO VÊ O QUÃO IDIOTA É ISSO? É TÃO ÓBVIO, COMO É POSSÍVEL NÃO ENXERGAR?

Então aconteceu o inconcebível, o que ninguém sequer ousou imaginar ser possível.

- AAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!

O professor berrava ensandecido, ninguém entendeu o que ocorria. Tapou o rosto com as mãos e não parava de gritar.

- AAAAAAHHHHH!!!! NÃO ESTOU VENDO NADA!!! AAAAHHHH!!!!

Ninguém teve sequer a coragem de se mover ou falar alguma coisa. Eu fiquei paralisado olhando a cena e tentando entender que loucura era aquela. O rapaz que desafiou o professor estava boquiaberto, mais pra estátua que para um ser humano.

- AAAAAAHHH!!!!! MEUS OLHOS!!!!!! EU NÃO ESTOU ENXERGANDO!!!!!!!!

De repente ele se calou, os ecos dos gritos ressoaram por alguns instantes, tirou as mãos do rosto e olhou fixamente para seu aluno por alguns segundos.

Percebi que ele tinha voltado a enxergar.

Se virou e saiu pela porta correndo.

Ele nunca mais voltou à escola.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Inevitável

Hoje pensei ter visto seu rosto.
Somente virei minha cabeça. De soslaio contra as árvores, sua face.
Mas eu apenas vi, as memórias. Nossas memórias.

E não pude evitar. Me apaixonei novamente.

Há carros e rodovias e pessoas, todos tentam me tirar deste lugar em que quero estar. Sou meu único amigo. Minha mãe me diz para manter a cabeça no lugar e te mostrar como é que se joga.

Mas não pude evitar. Me apaixonei novamente.

E de repente eu vejo tudo o que há de belo nas coisas efêmeras. Amor é só um pedaço de tempo em seu mundo.

Não, eu não pude evitar. Eu me apaixonei novamente.

domingo, 16 de maio de 2010

Tempos modernos

João estava na pior.

Acabara de ser despedido, o aluguel estava para vencer e tinha várias contas atrasadas.

Não havia solução, e o que não tem solução solucionado está.

Curtia uma bela de uma fossa quando chegaram dois amigos:

- Vai ter uma festa à fantasia maravilhosa no centro hoje, vamos sair dessa deprê!
- Você está convocado, não quero nem saber se você está falido, teu ingresso pra festa nós pagamos, você só tem que se virar com o resto.

Se estivesse em sã consciência João simplesmente ignoraria a insistência deles, o problema é que já estava há mais de uma semana curtindo blues e vivendo de miojo cru, seu cérebro mal respondia aos estímulos:

- Vamos então!

Levantou-se do sofá que já havia afundado com seu peso tantos dias ali prostrado e foi alugar uma fantasia. A mais barata que havia sobrado na loja era a de Charles Chaplin, como há dias não fazia a barba, daria pra fazer o bigodinho bem idêntico. O dinheiro de João era tão pouco que mal deu pra fantasia, sobrou o pouco do ônibus e pra UMA cerveja, mas estava feliz:

- Já está quase tudo ferrado mesmo, vamos mandar o resto às favas!

Arrumou-se como se fosse sua última festa, caprichou no bigode e a fantasia ficou perfeita, não tinha a mínima idéia do que seria sua vida dali pra frente, mas decidiu que não se importaria com isso, tiraria o máximo que podia daquele momento e que Deus o ajudasse.

A festa estava lotada, porém João dançou como se ninguém estivesse olhando, sorriu como se o mundo fosse perfeito, cantou como se fosse o Ney Matogrosso e bebeu tudo o que podia, inclusive da bebida dos amigos e com dinheiro da passagem de volta pra casa.

Acordou na sarjeta com o sol da manhã batendo em sua cara. Sua roupa estava suja, rasgada e amarrotada, não tinha nada nos bolsos. Resolveu andar a esmo, não tinha mesmo para onde ir, seu apartamento não seria seu dali a uma semana.

Parou em uma praça, o movimento do dia apenas começava. Sentou-se em um banco e colocou o chapéu do lado, ficou olhando as pessoas irem e virem.

De repente um homem veio em sua direção, colocou uma nota de dois reais em seu chapéu e lhe disse:

- Bom dia Chaplin!

João começou a rir, o dia estava lindo e o destino lhe dera uma nova vida.

Nunca devolveu a fantasia. Hoje em dia João pode ser encontrado fazendo performances de Charles Chaplin no centro de São Paulo, está casado e ano que vem pretende ter seu primeiro filho.