Sinto que o bonde de meu tempo passou e ao invés de correr atrás dele ou tentar alcançá-lo fico a observar os bondes dos tempos que não são meus, as vezes entro em algum, não são de todo ruins, o problema é que não há identificação, é como se mudar pra uma aldeia indígena, você pode achar tudo lindo, mas nunca será o seu lugar.
Eu deveria ter tido pelo menos mais umas duas ou mais namoradas, pelo menos mais uns dois empregos, mais uns seis ou sete arrependimentos, mais umas cinco decepções amorosas e no mínimo mais uma tonelada de histórias.
Vinte e três anos nas costas e não fiz nada do que deveria. Não plantei uma árvore, não tive um filho e muito menos escrevi um livro, ou seja, se eu batesse as botas nesse exato instante provavelmente eu estaria totalmente morto assim que meus pais finalmente se fossem, já que nem minha irmã me ama o suficiente para passar minha memória e história para meus sobrinhos, depois de uns 30 anos de minha morte estarei totalmente esquecido, exceto pela minha certidão de óbito em algum arquivo de cartório imundo e empoeirado.
Sei, sei exatamente o que eu devia fazer. Acordar amanhã e correr atrás dos meus planos, dos meus sonhos, buscar a felicidade e a eternidade que eu tanto sempre quis. O problema é a física. A inércia e a gravidade me prendem e me impedem de sair do lugar, e não adianta me falar que isso segura a todos e eles conseguem superar, porque a lei da relatividade mostra que para mim tudo é diferente.
Vontade, é a chave. O que me move? Aliás, o que te move?